quarta-feira, 28 de maio de 2008

Da série 'passou pelo mp3 e não deixou saudades'.

Embora alguns sem-noção como este que aqui escreve ainda resistam bravamente, todos sabem que a abolição do CD para o grande público é iminente. Nenhuma novidade até aqui. Mas, entre os que respiram música e procuram constantemente alimento para os ouvidos, nem todos se deram conta do processo "evolutivo". Muitos discos que ainda nem saíram em formato físico chegam quentinhos no desktop e vão para a lixeira poucos dias depois (às vezes, poucos minutos depois), quase despercebidos. Entram por um ouvido e saem pelo outro, literalmente. Aqui vão alguns que passaram por aqui nas últimas semanas, todos lançados/vazados em 2008. Em breve, mais uma fornada.

Death Cab For Cutie - Narrow Stairs
Conhecia de nome e sabia que um dos membros produziu um disco recente do Nada Surf. O pouco que ouvi de Plans, álbum anterior deste quarteto americano, já avisava: tudo bonitinho, limpinho, insípido, devagar, quase parando. Deveria ter parado por ali, mas sou cabeça-dura. Banda adorada por indie-rockers nerds (pleonasmo?) do hemisfério norte, o DCFC faz a típica trilha de séries como O.C., com músicas longas, sem pegada, sem melodia marcante. Letras "rapazinho sensível" com pretensões literárias - tem até citação a Kerouac - mas sem inspiração. Guitarrinhas murchas, voz comportada, teclados modorrentos e contínuos. Sono, muito sono. Ouvir Narrow Stairs de cabo a rabo é como comer aquela sobremesa que ficou semanas na geladeira.

Hold Steady - Stay Positive
Tiozinhos elogiados por sites gringos como o Pitchfork e presença constante em listas de melhores do ano de revistas tipo Uncut, Mojo e yadda-yadda-yadda. A banda até que é boa: influências de Springsteen e Replacements, refrãos que funcionam em arena e letras espertas que, na verdade, são pequenos contos sobre gente bêbada e passional. Os únicos problemas com este disco são:
(1) O vocalista, com sua indefectível voz de pato, precisa de um fonoaudiólogo urgente. E a cada faixa ele insiste nos mesmos maneirismos: voz anasalada proferida com sofreguidão, quebrando a métrica. Começa a cansar na metade.
(2) De vez em quando a banda finca o pé na farofa. Uma faixa, por exemplo, é conduzida por um cravo, instrumento de gosto bem duvidoso. Em outra, uma belíssima balada, entra uma guitarra solando à la Richie Sambora.

Howlin' Rain - Magnificent Friend
Definida por muitos como o Purple clássico com os vocais de Rod Stewart dos bons tempos (anos 60 e 70), esta banda de San Francisco é exatamente isso e não vai muito além. Não que seja pouco. A mistura de soul, hard rock, blues e psicodelia, com direito a timbres e produção vintage, chega a empolgar em alguns momentos. Ao vivo deve ser potente. Com uma cerveja geladíssima acompanhando, então, perfeito. Poderia ser daquelas bandas que nunca gravam, só viajam por aí tocando em feirinhas da Pompéia, viradas culturais e bibocas da Louisiana. Mas o disco, embora interessante, chega a ser caricato. E nem seria preciso dizer, mas vá lá: não faz nem sombra a um Exile on Main Street ou mesmo aos melhores do Black Crowes.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Apesar do 1° de abril...

19° Cartório de Registro Civil, Perdizes, por volta de uma da tarde. Aproveito minha semana tranqüila, pós-trabalhos tensos, para dar prosseguimento à abertura da encantada ME. Enquanto aguardo berrarem o número 272, minha senha, dou uma geral na fila de gente com cara de nada, espalhada por bancos ensebados e paredes curtas. A única figura que destoa no meio dos burocratas é um cara grandão e barbudo, totalmente coberto de tattoos esverdeadas, dos punhos até o pescoço, usando dreads, bandana, rayban e chinelo. Naipe de músico, lembra o Rick ta Life. Avisto o elemento ao mesmo tempo que um provável velho conhecido dele, que chega dizendo:

- Fala, meu velho! Como é que tá?
- E aê, fulano! Quanto tempo, hein?
- Pois é. E aí, o que tá fazendo?
- Tava parado por um tempo, mas voltei a tocar.
- Legal. Tá fazendo som com quem?
- Tô tocando na banda do Gilliard, cara.

quarta-feira, 19 de março de 2008

R.E.M. - Accelerate


Para muita gente, eles já deram o que tinha que dar. É a parcela do que público que, embora ainda preze a banda e ouça seus principais hits, deixou de acompanhá-los em algum momento dos anos 90. E é bem provável que esses quarentões da Geórgia, no sul dos EUA, já tenham deixado os demais mortais a par sobre os seus melhores trabalhos. Eu mesmo já havia parado de prestar atenção no que o R.E.M. lançava desde o irregular Up, de 98. Ok, tive vontade de vê-los três anos depois, no Rock in Rio III, mas não deu - acabei me contentando com um show farofeiro e no piloto automático dos Chili Peppers. Demorei até gostar de verdade do Reveal, um disco belo e subestimado. Já o mais recente Around The Sun, de 2004, ouvi poucas vezes ao pegar emprestado de um amigo que é grande fã da banda. Foi o suficiente para carimbá-lo como o ponto mais baixo, talvez o único momento constrangedor em 20 e tantos anos. Posso estar sendo simplista, mas discurso político pró-democratas (foi lançado pouco antes do Bush se reeleger em cima do Kerry) e arranjos eletrônicos broxas não combinam com Stipe, Mills & Buck.
O forte deles sempre foram canções redondas. Baladas matadoras acústicas e orquestradas, levadas roqueiras intensas e boas canções pop, sempre com sotaque interiorano estadunidense e forte apelo universal. Mas a alternância entre os momentos introspectivos (ouça o New Adventures in Hi-Fi inteiro) e efusivos ("Shinny Happy People" é o exemplo mais óbvio) parecia começar a cair pelas tabelas. Accelerate, o novo disco que está para sair, inverte toda essa lógica. Havia tempos que a banda não soava tão energética e concisa. A empolgante seqüência das três primeiras faixas já denuncia: Peter Buck, com quase cinqüenta anos, volta ao primeiro plano e continua sendo ótimo guitarrista. Com faixas curtas e roqueiras, o disco soa como uma versão mais otimista do melancólico Monster, de 94, álbum distorcido e com gosto amargo pós-suicídio de Kurt Cobain. Ainda ouvi poucas vezes o novo, mas já arrisco dizer que me enganei ali em cima: talvez o R.E.M. ainda possa surgir com material tão bom quanto o melhor que já fez. Accelerate dá essa pista.


- Quem peidou tá com a mão amarela.
- ...I beg you pardon?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O ogro e a mademoiselle


Como eu dizia no post anterior, apesar de Greg Dulli e Mark Lanegan ostentarem a banca de fanfarrões, ambos andam mais produtivos do que nunca. Prova disso é a notícia que acabo de ler: sai em maio Sunday at Devil Dirt, segundo fruto da parceria de Lanegan com a escocesa Isobel Campbell, apenas dois meses após o début do Gutter Twins ir para as lojas.
Considerando o primeiro trabalho, Ballad Of The Broken Seas, as expectativas são altas. Isobel deixou de ser aquela menininha inocente dos primeiros discos do Belle & Sebastian, quando emulava muito insossamente o canto etéreo da junkie Marianne Faithfull (fase 60's). Não acompanhei sua carreira solo, tampouco me empolguei com o pouco que ouvi de seu outro projeto, o Gentle Waves. Mas, enquanto entrava na casa dos 30, Isobel compunha sozinha Ballad... (assim como o novo, pelo que consta). Com uma sonoridade mais americana, com um pé no folk e o outro em Morricone, ela manteve ali o que tinha de melhor: sofisticação e graciosidade. Mark Lanegan confirmou ser um excelente coadjuvante, surgindo sempre com uma interpretação inspirada e etílica. Um pensamento bem metafórico e clichê vem à cabeça para tentar definir o álbum: se O Segredo de Brokeback Mountain fosse sobre um casal hétero, teria Ballad of The Broken Seas como trilha sonora.
Enfim, tentarei deixar links e escrever algo por aqui quando puser os ouvidos no novo disco.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008


Caiu na rede o primeiro disco do Gutter Twins, Saturnalia.

Para quem não sabe, trata-se do novo projeto envolvendo Greg Dulli e Mark Lanegan, os melhores cantores e grandes cafajestes do rock americano da atualidade. Na verdade, a idéia nem é tão nova assim. Dulli e Lanegan já eram figuras manjadas desde o meio dos anos 90, quando suas respectivas bandas, Afghan Whigs e Screaming Trees, apareceram para um público além do moleque indie americano que costumava ir aos shows. É aquela história que você já leu milhares de vezes: estouro do Nirvana, valorização de passe do rock alternativo (quando isso não era palavrão), bandas pegando o bonde andando, contratos. Para saber mais detalhes, alugue aquele filme Hype!.
As primeiras notícias de que os dois trabalhariam juntos datam de 2003. De lá para cá, Lanegan participou de faixas do Twilight Singers, a principal empreitada de Dulli depois que este desmanchou o Afghan Whigs (banda de cabeceira deste que aqui escreve) na virada da década. Lanegan alterna discos solo com participações em trabalhos de gente interessante como Queens of the Stone Age, Soulsavers e Isobel Campbell (ex-Belle & Sebastian). Com esta última, aliás, ele fez Ballad of the Broken Seas, um dos álbuns mais belos e surpreendentes de 2006.
Dulli, por sua vez, vem lançando uma série de bons discos com os "cantores do crepúsculo", mas seu ponto alto foi o último trabalho dos Afghan Whigs, 1965. É daqueles discos perfeitos (e olha que eu faço afirmações assim com parcimônia), que, num mundo ideal, faria rodar o globo espelhado em qualquer casa de camélias que se preze.
Em Saturnalia, embora os dois participem de todas as faixas, nota-se de cara que é Mr. Dulli quem dá as cartas. Há algum tempo o cara desenvolveu um jeito de compor bem típico, que, apesar de se repetir (ou por isso mesmo), raramente dá errado. Fissurado pelos soulmen da Motown e Stax, ele encarna uma espécie de Marvin Gaye branco e mais visceral, cantando histórias (verídicas?) cheias de fornicações, relações despedaçadas, meretrizes, amor doentio e drogas. Vamos combinar: alguém que já cantou "Ladies, let me tell you about myself/I got a dick for a brain" deve ter pouca moral com as sogras, não é mesmo? E a cada nova remessa de músicas, ele recria e recombina a batida de "Sexual Healing" com uma levada mais roqueira, entorpecida e, por vezes, melancólica, que serve como base para seu vocal "raspado" e extremamente passional. Lanegan complementa isso muito bem com seu barítono ébrio e cavernoso, impregnado de nicotina. Herdeiro de outsiders como Tom Waits e Jeffrey Lee Pierce (falecido líder do Gun Club, banda que pretendo ouvir mais), o ex-Screaming Trees deve ser daqueles sujeitos que exalam cigarro pelos poros. Confira sua performance na sexy e pesada "Idle Hands" ou na sombria "All Misery/Flowers".
Bom, já falei demais. Seja esperto e dê ouvidos a esses dois canalhas. E torça para que em breve tenham a chance de conferir a "nossa" caipirinha em algum festival brasileiro!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Sobre dedos e canivetes suíços

Hoje percebi uma coisa: embora meu modesto mp3 player tenha me ajudado a atenuar as agruras do dia-a-dia no último ano, ele me priva de ouvir o que há de mais lúdico e cruel na prática de praguejar a quem quiser ouvir. Ao entrar no vagão do trem e notar várias pessoas se entreolhando e rindo, localizei um senhor de uns 60 anos sentado na ponta de um banco, vestindo camisa, calça dobrada até o joelho e chinelos, lembrando vagamente algum personagem de programas de humor decadentes que envolvam escolinhas, praças ou zorras.

- ... o Bobô fazia muito gol e foi campeão brasileiro com o Bahia, mas sabia que o Barradão ia desabar! Só ELE sabia!! Bem feito, agora o Bobô tá preso! E o Bahia tá jogando no estadio do Vitória, vê se pode!! Igual ao Corinthians, que nem endereço tem. Eu fui até lá em Itaquera outro dia pra procurar e não encontrei nada, só mato!
Alguns possíveis corintianos olham feio para o sujeito.
- Próxima estação: Cidade Jardim...
- ... porque eu cortei o meu dedo pra me aposentar!!! Agora eu me aposento, nem que vá até a OAB! Vou falar com os adévogados! Não vou ficar sem dedo e besta, que nem o presidente.
Gargalhadas.
- Isso aê, tio. Ranca o dedão fora!
- Próxima estação: Berrini...
- Ô seu prefeito, quero luz na minha ruaaa... pra morar com minha mulher, meu filho e meu amigo... - Começa a cantar, usando a melodia de "Respeita Januário", do Luiz Gonzaga. De repente, interrompe e anuncia - Pra quem não sabe, essa música é de minha autoria!
- Próxima estação: Granja Julieta...
Saio do vagão e, enquanto atravesso a passarela, começo a achar que preciso dar mais atenção a estranhos na rua.

Na semana passada eu deixei o mp3 no chão e, como quase sempre a truculência surge em momentos de distração, pisei nele sem querer. Quando ouvi o estalo, pensei que tinha acabado de inutilizar o aparelhinho, mas só trincou o vidro. Pode ser um começo.

E até onde eu saiba, Barradão é o estádio do Vitória. O que desabou foi a arquibancada da Fonte Nova.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

2008... Agora vai?

Nunca soube explicar direito por que, mas acho que funciono melhor nos anos pares. Já os ímpares seriam os mais áridos, os que exigem mais esforço para se sair do lugar. Também não me pergunte o motivo, mas vivo dizendo por aí que, se fizer uma fézinha na Mega Sena um dia, vou faturar a bolada (detalhe: nunca joguei na vida). Ainda não descobri, mas pretendo um dia entender por que resolvo empacar quando já nadei atravessando a rebentação. Mudei de trabalho nesse começo de ano, mas ainda estou insatisfeito. Fui obrigado a trabalhar com mais autonomia, mas a base às vezes ainda treme, como a faixa de pedestres da Consolação com a Paulista. Comecei a usar a esteira de caminhada/corrida do prédio, mas a circunferência abdominal ainda não deve ter acordado na segundona pós-Carnaval. Perder o show do ancião Dylan também está sendo uma idéia difícil de se acostumar, mas o preço ridículo e a performance no modo Alzheimer ativado do mestre me conformam. O jeito é colocar mais assuntos na roda por aqui, mesmo que seja uma variante capenga do famoso tudo-sobre-o-nada que deixou o Jerry Seinfeld milionário. Mais uma tentativa, campeão!

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Esporeando os sentidos

Duas gotas, três libras, sete palmos, nove compassos, onze goles, vinte jardas, trinta e cinco graus celsius, quarenta e três pistas falsas, cinquenta e cinco trocas de lugar, sessenta milhas, noventa e uma ligações não atendidas, cento e vinte e cinco dias, oitocentos e nove folhas, cinco mil hectares, quarenta mil barris, um milhão de pulsações cardíacas.

Antes dos ânimos esfriarem, do tédio implacável se acomodar e de "Tente outra vez" em versão gospel sair pelas caixas de som de um camelô qualquer, me transformo em outro animal para sair uivando por aí em dialeto próprio. E o futuro, ou o melhor que ele pode trazer, dá um chá de cadeira. Essa é minha prova de paciência, e o jogo é disputado lance a lance.


[devaneios produzidos à audição do disco novo do Modest Mouse - "We Were Dead Before The Ship Even Sank"]

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Piada pronta

Há exatamente uma semana, pouco antes de sair para o trabalho, eu folheava o jornal até encontrar uma declaração que me chamou a atenção. A reportagem era sobre uma das vítimas do desmoronamento da obra do metrô Pinheiros: uma advogada de Carapicuíba, que deixou filhos de uns 10 anos. Para ilustrar, uma foto lamentável do enterro, com os filhos e o resto da família chorando (como tem fotógrafo de redação filha da puta por aí), pouco tempo depois de saberem que a mulher tinha ido dessa para uma melhor. Ao lado, um painel de declarações vinha com a célebre frase de uma vereadora conterrânea: "Quando eu vi a notícia da tragédia na TV, sabia que teria alguém de Carapicuíba no meio. Sempre sobra pra Carapicuíba", que me fez rir, desconfortável pela situação. Alguns minutos depois, dando carona pra minha amiga e nova colega de trabalho, recebi a confirmação: "É verdade! Pode ver que sempre tem gente de Carapicuíba no meio de um desastre...".
Quase em frente ao trabalho, a constatação. Ao entrar numa avenida, cometo aquela cagadinha que vinha até então me trazendo sorte: entro com o carro olhando os que estão vindo, sem lembrar de conferir o que tinha do outro lado. Um amassado de leve nas duas latarias, acho até que eu levei a pior. O "terceiro" (jargão da seguradora), meio apressado a caminho do trabalho e nada estressado, deixa nome, contato e placa do carro, XXX-0000, município de Carapicuíba. Pelo jeito, sempre sobra mesmo.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Moving forward

Começo de ano bem agitado por aqui. Não consigo lembrar da última vez em que senti de forma tão nítida uma virada de ano, sem shows pirotécnicos nem promessas de ocasião. Na falta de um trabalho, vieram dois. A bile vai sendo escoada aos poucos. Pessoas importantes vão optando por virar farelo, pessoas antigas vem reaparecendo e pessoas novas chegam em relação ainda ruidosa. Vários amigos dando guinadas, várias boas notícias espalhadas semana afora. Ainda na adaptação ao novo, o motor aqui demora para esfriar na hora de dormir apesar do cansaço com o qual eu sonhava por noites seguidas. Agora, quando o sono vem... sabe aquela cena do Clube da Luta em que o Edward Norton dorme como criança depois de freqüentar o grupo dos tumores de cérebro? Bem por aí. Para quem é devoto do que vem a seguir e nunca se sentiu lesado por ser não-cristão no país errado, nada como um começo bem pragmático e com a receptividade colocada à prova. E de vez em quando, só para quebrar a rotina, ainda me vejo perdido em alguma parte, ora pelo céu, ora na cratera. Mas, para retomar, é só sair da pista local dando seta para a esquerda.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

A aridez da sala de espera

Pessoas se evaporam. Você conta até dez, abre os olhos e não há mais nenhuma pista. Nenhuma. Só o gosto amargo do fim do ano. Para me distrair do lado de fora dos vidros embaçados, saio pelo centro vagando em busca de um tênis preto novo que tenha absorção de impacto. É uma pequena obrigação para um trabalho que vem por aí e uma grande necessidade de esvaziar a cabeça. No contrafluxo da crise natalina em estado pleno, preciso atravessar uma corrente de sorrisos com botox natural que marca a véspera da entrega de presentes. Não são apenas blocos humanos se deslocando de várias direções, mas também suas sacolas vermelhas que formam o cimento e dão liga aos blocos. Vendedores na rua, e não dentro das lojas, como pequenos pedaços de carroça na frente dos bois. A cena mais aterradora, no entanto, é a de um garoto de uns 13 anos dançando "Um Minuto para o Fim do Mundo", do CPM22, descalço, em frente ao Mini System de uma loja popular. Abrindo os braços, cantando alguns trechos, franzindo a sombrancelha sempre de olhos fechados e empunhando como microfone um pequeno inalador de benzina.
Levo pouco tempo até achar o que quero. Promoçãozinha acessível, modelo razoável também. Pago, boto a viola na sacola e vou brindar a chegada da chuva com um frugal suquinho de abacaxi. Daqueles pouco recomendados para diabéticos, cortesia (ou falta de aviso) do tio da vitamina. Mas era o que o gosto amargo pedia.

Na madrugada seguinte, mais precisamente às 4:55 a.m., toca o telefone.
"Zzzzzzz... alô?"
"Htmaretzdetralalatchibumtekjd..."
"Desculpa, não entendi nada. Quer falar com quem?"
"Natrbakterlipwsapopodjdkjihihihehehakja..."
"Não é aqui", e desligo.
Toca de novo. Encarrego a secretária eletrônica de atender, mas não deixam recado. Em seguida, começa a chamar pela terceira vez.
"Alô. Humpf."
"Qwertypoiuytasdflokdidfna..."
"Vai encher de bizarrice o Natal de outro infeliz, filho da puta!"
Botão Talk mode off.


Mal posso esperar pelo doce mês que vem.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Tom Waits - Swordfishtrombones



Começa pelo óbvio: um cachorro molhado bufando uísque e estalando os dedos. O paletó bege, quarado ao sol em varal de improviso, exala aromas de fumaça e de um milharal mal cuidado. A cabeça tamborila impiedosamente a cada centímetro que se distancia do chão. O corpo está cheio de pequenos hematomas de dias atrás, amarelados e solenemente ignorados. O adubo seco encrustado nos vãos da sola do mocassim se desprende aos poucos. A cachorrada - a de verdade - uiva com languidez lá dos fundos. Soa como cordas de violinos afinadas antes do concerto. Mastins napolitanos de fraque e galgos de cacharrel, todos com a garganta entupida de pigarros e se empertigando até o rufar do tornado. Os comprimidos para aplacar a labirintite se dissolveram no calor úmido - fundiram-se numa gosma uniforme de tom sujo e esbranquiçado. "Melhor guardar de volta", pensa. A mão faz um gesto curvado para baixo, supondo que o recipiente vá cair dentro do bolso ao ser largado pelos dedos. No entanto, a desatenção trêmula faz o vidro escorregar por fora, se despedaçando no ladrilho morno. A calça de cinto desafivelado pende para baixo, pesada. Os bolsos transbordam de papéis socados - talvez por isso o trajeto de retorno do remédio tenha terminado em acidente. Bolas e tiras amassadas de papel quase que escapam sozinhas dos bolsos, como líquens invadindo o muro do vizinho. "Melhor colocá-las de vez para fora", rosna o Rottweiller, com voz de poucos amigos.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

O valor sentimental da adiposidade

Se guardássemos os problemas em uma adega, provavelmente eu seria um bem-sucedido sommelier (aliás, nunca achei que fosse escrever essa palavra, a não ser por uma eventual obrigação profissional). Sou daqueles que zelam com 'carinho' questões a serem resolvidas, como se fossem uma heróica pança de cerveja, como se realmente precisasse envelhecê-los em barris de carvalho até um certo momento - não necessariamente o melhor - de sacar a rolha. Não que eu tenha orgulho disso. Recomendo sempre o contrário quando me pedem conselhos. E mesmo este espaço aqui, como o visitante de ocasião poderá reparar, é um dos meus elefantes brancos de estimação. Passou quase o ano inteiro sedentário e catatônico, evitando a fadiga. Quase um bovino premiado. Mas agora já é época de festas de fim de ano: estamos a exatamente um mês do Natal e o elefante já pensa na ceia e se o balanço anual teve deficit ou superavit. Enquanto isso, a mãe histérica lembra de vez em quando do filho adolescente gordinho, espinhento e trancado no quarto, gritando da porta entre uma ressaca e outra. Mas as perspectivas são boas. Como boa mãe que sou, matriculei o rechonchudo problemático numa cadimía.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Black Mountain - s/t (2005)



Sabe quando você se depara com aquele disco repleto de informação e, de saída, não consegue sacar a banda da forma mais preguiçosa? Sabe quando ouve algumas vezes e fica na dúvida se os caras estão perdidos no excesso de referências ou se condensaram tudo maliciosamente em 40 e poucos minutos, justamente com a intenção de primeiro te oferecer um balaio de iguarias que você já provou antes mas que, recombinadas com alguma criatividade e persistência, proporcionam um novo prazer? Pois em algum lugar nessa larga avenida de divagações está espalhada a música do Black Mountain, que estreou com um belo álbum homônimo no ano passado e só agora descobri.

Existem, basicamente, duas formas de se escutar o disco deste coletivo de Vancouver (Canadá) que gira em torno de Stephen McBean. A primeira, mais fácil e lúdica, faz você ir associando cada passagem a algum momento relevante já percorrido por esse cinquentão enrugado (err... o rock, não o tal do McBean). Está tudo lá, muito bem distribuido: Velvet, Black Sabbath, Stones, Pink Floyd, space rock, Led Zeppelin, Sly & The Family Stone, stoner rock, The Fall, estética low fi. "Modern Music", por exemplo, abre o disco com um sax aparvalhado e lembra Pavement pelo desleixo cínico e divertido, mas serve como pista falsa para o que vem a seguir. O single "Druganaut" é um híbrido do groove lisérgico do Sly Stone com o peso monolítico do Sabbath. Bagagem referencial transbordando. E olha que são apenas duas das oito faixas.

Há ainda uma segunda form(ul)a para ouvir Black Mountain. Para isto, no entanto, antes de mais nada seria preciso descartar o parágrafo anterior. É uma experiência de retorno menos imediatista e mais recompensador: esqueça quem já fez parecido antes, fique com as pistas inadvertidamente cedidas. É mais simples do que parece. Basta prestar atenção nas flautas, vocais masculinos/femininos, palmas, pandeiros, atmosferas drogadictas. Nevoeiro. Introspecção. Euforia descontraída. Confusão. Sujeira bem organizada. E fique tranqüilo, pois acaba antes de cansar e você provavelmente vai descobrir mais detalhes e lugares nas próximas audições.

Stephen McBean pode ter uma baita cara de zé droguinha, mas é um sujeito inquieto. Também já confabulou outros projetos, como o Jerk With A Bomb e o Pink Mountaintops - este último soltou recentemente o álbum Axis Of Evol. Tem lançado em média um disco por ano, cada vez por uma das bandas e sempre por um selo próprio, o obscuro Jagjaguwar. A crítica e o bom nerd de plantão prestam mais atenção a cada lançamento do coletivo. Ouvi uma ou outra coisa e, nesse mostruário de tubos de ensaios, o Black Mountain parece ser o mais convidativo capítulo iminente para o que realmente interessa.

sábado, 22 de abril de 2006

The Raconteurs - Broken Boy Soldiers (2006)



Sou daqueles que torcem o nariz quase de imediato a hypes do novo roquismo, apesar de acompanhar uma ou outra banda à distância. Os critérios que vou usando para ir atrás ou descartar o que a mídia especializada anda babando o ovo são um tanto incoerentes e obscuros. Enquanto não chega o momento em que alguém dessa 'leva dos anos 00' transcenda à perenidade - por meio de trabalhos mais consistentes ou pelo bom 'envelhecimento' dos já lançados - vou me guiando por este faro subjetivo. Mas isso não importa agora.

O que interessa como prólogo à audição de Broken Boy Soldiers é: o White Stripes, banda que divide Jack White com os estreantes Raconteurs, nunca me desceu direito. Ok, o cara tem algum talento, saca um bocado de guitarra e de autopromoção, mas sua banda sempre me soou ordinária, comum. Voz entre o esganiçado e o histérico, blues sujo e garageiro como dezenas de bandas americanas já fizeram com igual ou maior competência, e alguma habilidade para compor músicas marcantes (subutilizada em "Seven Nation Army", o hit mais chato de 2003). Sem contar as excentricidades da dupla sempre prevalecendo à música, o que depõe muito contra. E Brendan Benson, o outro membro 'manjado' dos Raconteurs? O pouco que conhecia remetia a um Elliott Smith mais dado a amenidades. Só confirmava minha baixa expectativa para esse projeto.

O disco, no entanto, quase consegue a proeza de unir o melhor dos dois mundos. A começar pela música de trabalho, "Steady, As She Goes", a primeira a cair na internet: um power pop caprichado, que valoriza os backing vocals e com guitarras moldando um senso melódico na escola do Big Star (banda setentista lendária, mas com pouco reconhecimento de público). Muito do material que a segue vai por um caminho parecido. A faixa-título, "Intimate Secretary" e "Store Bought Stones" são exemplos de como a banda emula impiedosamente Led Zeppelin nos agudos de Jack White, nas slide guitars, nos riffs inventivos, nos arranjos que crescem com ajuda de violões folk e de uma cozinha pesada. Os anos 70, e em especial as duas bandas daquela década citadas aqui, emprestam as principais ferramentas dos Raconteurs.

E não pára por aí. "Yellow Sun" lembra a introdução de "Pinball Wizard", do Who. A faixa que encerra o disco, "Blue Veins", entrega ainda mais: dá pra imaginar Jack White ouvindo sem parar "Since I've Been Loving You", aquele épico blues rock zeppeliano, enquanto a compunha. Ou quem sabe a fonte tenha sido "I Want You", o momento mais dilacerado de John Lennon em Abbey Road. No meio disso tem a balada "Together", talvez a principal composição de Benson no disco, acenando tanto para essa atual onda neo-folk como para os caipiras originais dos anos 60 e 70.

Broken Boy Soldiers é, sim, um álbum bem retrô. O elemento diferencial que os joga de volta ao presente - livrando a cara deles da suposta acusação de 'nostalgia do não-vivido' - está no simples poder de concisão, típico do rock feito nesta década. Nada sobra nas dez faixas, tudo é bem dosado e pouco reafirma os excessos do rock de arena ao qual boa parte do hard rock dos 70's descambou antes do punk surgir.

Ah, e eu disse que há QUASE o melhor dos dois mundos de JW e BB? Deve ser porque eles mal se juntaram e ainda estão no caminho... e tudo bem, o primeiro dos White Stripes até que é bacana.

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Começando a cumprir a previsão de hoje mais cedo, passo a comentar aqui os discos que rodam aqui em casa. Tentando deixar a pretensão de lado, é claro. E falando nisso...

Snow Patrol - Eyes Open (2006)



Quase todos os textos que li sobre o Snow Patrol - especialmente os que saíram após o lançamento do bem sucedido disco anterior, Final Straw (2004) - comparavam esses escoceses ao Coldplay, como se fossem tudo aquilo que faltava à burocracia de Chris Martin e seus colegas: mais vibração, menos pieguismo. Melodias igualmente bem acabadas porém mais sucintas, com uma pegada mais roqueira.

Bem, confesso que ofereci alguma resistência à banda, pois costumo manter distância do tédio que o Coldplay e bandas relacionadas (er... Keane?) me despertam. Já havia conferido rapidamente o primeiro disco da patrulha da neve, Songs For Polarbears, que me causou total indiferença. Algo do tipo: ok, mais um bando de jovens sensíveis para fazer volume na segunda divisão do indie pop britânico, que também não anda lá bem das pernas. No entanto, fui cedendo aos poucos, peguei o disco de 2004 para escutar e, movido por canções altamente grudentas como "Spitting Games", acabei endossando aquelas resenhas.

Já este Eyes Open, quarto CD do Snow Patrol (ainda não disponível nas lojas), depura todas as qualidades e mantém os excessos de Final Straw. Se no disco anterior haviam guitarras altas palhetadas para baixo somadas ou se alternando a teclados onipresentes, agora a banda mantém a equação, com produção e timbres ainda mais esmerados. Se antes faziam baladas cinicamente desamparadas para ganhar os fãs pueris dos Smiths, dessa vez ainda colocam uns backing vocals femininos. Soam como uma banda de garagem sendo obrigada a tocar em uma arena para um público médio, tentando conquistá-lo com canções redondas, cheias de refrões grudentos, mas ao mesmo tempo enxutas de clichês popularescos.

As três faixas que abrem o disco, "You're All I Have", "Hands Open" e "Chasing Cars" são extremamente acessíveis e radiofônicas mas fogem do vazio e da desmedida. Suas letras são simples sem serem derramadas. Em "It's Beginning To Get Me" o vocalista Gary Lightbody arrisca um falsete a la Bono e (medo!) Chris Martin, mas a superação da honestidade sobre a canastrice acaba conquistando o ouvinte. A rapidinha e alegre "Headlights On Dark Roads" joga um balde de água fria nessa faceta 'eloqüente', com a guitarra lembrando Pixies.

Se você cansou da nerdice rock de buscar os 30 discos mais experimentais segundo a Mojo, se quer ouvir música pop não vulgar em 2006 e está disposto a dar ouvidos a uma banda sem pretensões vanguardistas/messiânicas/salvadoras do rock, abaixe a sombrancelha desconfiada e arrume um jeito de ouvir este disco.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Breathe in, breathe deep

Um título me veio à cabeça. Só o título, sem o corpus.

O mistério da continuidade parece um fenômeno que passa ao largo. Ou melhor, passa até perto, mas acontece só com os amigos e vizinhos. É o processo inverso do assalto ou da gravidez inesperada. Você acha que só ocorre com o outro, mas bem que gostaria de ser esse tal do 'outro' de vez em quando. Assim, enquanto nada acontece, apenas consigo pensar no título.

Uma pequena idéia mirabolante para cada execução em frangalhos, estilo Elvis gordo em Las Vegas. É tão curta que quase morro sufocado durante a transpiração. É tão superestimada que, se percebermos a assimetria (in vs. out), essa idéia mais parece um membro atrofiado. O choque da constatação não chega a ser visual, mas causa um incômodo igual ao daquelas fotos de pacientes com braços não-desenvolvidos. Afinal, os que podam são os outros, especialmente eu mesmo.

Uma vida longa demais para dormir. A inspiração da madrugada é descontinuada.

segunda-feira, 13 de março de 2006

Começo tardio

Um grandioso e resoluto pontapé é desferido para se livrar do amargo obscuro que persegue. Ou, como alternativa, prosseguir e relevar sabendo que antes de mais nada você é fugitivo. Primeiro você foge, então vira descobridor. Dobre o passado com jornal, ou aperte-o para o ar sair e diminuir o volume na bagagem. Bem, a largada foi dada faz tempo e se não estive muito por aqui é porque pouco tive do que reclamar. Ainda vou me acostumar a ver isso como algo além do saco de pancadas. Se bem que...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Pequenos votos de fartura e esperança

Os maus saudosos vão saber apreciar esse final.
O abraço no porco-espinho certamente será aplicado e multiplicado nesse final.
O pneu do caminhão de mudanças corre o risco de furar nesse final.
A hora de retirar o gesso e as gazes pode ser agora, nesse final.
Lágrimas de vinagre e uma conspiração muda poderão se formar ou serem adiadas nesse final.
Enquanto isso, antes do começo encerrar de vez o final, pessoas espertas discutem papel higiênico.
E Deus continuará sendo um cachorro e um cristal.

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Apologia à rinite faz bem aos ouvidos

Bom, passaram batido por aqui quaisquer comentários sobre os maravilhosos shows do Claro Q É Rock no final do mês passado ou mesmo sobre a vinda do Pearl Jam. Estes últimos, embora tendo perdido, acompanhei passivamente o set list daqui de casa por morar perto do estádio. Pra consolar, vou recorrer ao velho e divertido post da trilha sonora dos últimos dias:

Swervedriver - "Mezcal Head" e "Raise". Baixei os dois primeiros discos dessa banda britânica, extremamente criativa durante os anos 90 e solenemente ignorada pela minha curiosidade até pouco tempo. Eu sabia mais ou menos do que se tratava e tinha preguiça: o rótulo shoegazer pra mim era quase sinônimo de autismo. Aliás, ainda é. Como há exceções que confirmam a regra, adoro My Bloody Valentine e agora estes cabeludos totalmente sem naipe. Gosto disso: bandas de gente com cara de 'normal', ou daquelas que você vê uma foto e não saca de cara o poder sônico. O Swervedriver batia cartão no Lado B da fase boa, quando um bando de zé-ninguéns de Oklahoma ou de Oxford eram despejados nos lares mais sortudos. O som é altamente estradeiro, tem muita pegada. Letras sobre mustangs e desertos. Vocal melódico e enterrado em milhares de detalhes de guitarras que, ao contrário das bandas 'próximas', te cativam e nunca entediam.

Social Distortion - "Somewhere Between Heaven And Hell". Sem palavras. Emocionante. E há anos que eu adiava a aquisição deste aqui. Uma definição simples e rasteira: o Mike Ness é um encontro do Joe Strummer com o Johnny Cash. Mas ainda prefiro o outro disco deles que tenho, o "White Light White Heat White Trash".

T. Rex - "Electric Warrior". Róque jurássico, afetação e diversão garantidas.

Detalhe: esses dois últimos eu comprei num sebo a preço de banana. Aliás, no final de semana passado tive o deleite de ler uma matéria na Revista da Folha com um percurso por alguns sebos daqui de SP. O prazer veio não só pelo meu insalubre hábito de fuçar os carcomidos estabelecimentos sempre que rola a equação [grana x paciência]², mas também por conhecer a maioria dos lugares listados e, principalmente, por estar familiarizado com esse prazer de encontrar um livro ou disco absurdamente barato, daqueles que o vendedor não tem a menor noção de quanto valeria numa dessas lojas virtuais gringas ou mesmo daqui. Aparecem direto cds ou livros usados com estado de novos, mas com preço de usados. Como viciado em música e sedento por pequenas descobertas inusitadas, já achei muita gente boa como Nine Inch Nails, Superdrag, Van Morrison e até a PJ Harvey dando mole. Também já tive umas desilusões, como ficar embasbacado ao achar dois cds clássicos do genial freejazzista Ornette Coleman por quinze pilas cada e, ao levar até o balcão, me deparar com um talho grotesco na mídia de cada um deles. O único efeito colateral preocupante disso tudo, além da maldita alergia, é o risco de se adquirir o senil costume de analisar longamente cada item pensando no custo-benefício. Mesmo que esse 'achado' seja um resumão de vestibular do José de Alencar ou um poster do Vanilla Ice.

Pra terminar, a dúvida: por que a redação da tal revista não investe mais nessa linha 'opções e roteiros insólitos em SP' e larga a mão de vomitar sempre como matéria de capa o catálogo da Dolce & Gabbana?!