domingo, 4 de julho de 2010

Primavera Sound, terceiro dia

Também conhecida como a noite Palco ATP, pelas escolhas que fiz.

Cheguei mais cedo para a última rodada, por volta das 17h30, a tempo de apostar algumas fichas no Psychic Paramount sob um sol punidor no ATP Stage. Não conhecia o trio nova-iorquino, e o imprevisto foi grato: paredes de guitarra e crostas espessas instrumentais ora endurecidas, ora fluidas e abstratas. Bom cartão de visitas. O público, ainda meio escasso, em certo momento teve chance de contemplar uma linha imaginária que partia do desvario organizado do palco e dividia o sol forte do lado direito do céu e as nuvens plúmbicas (gostei dessa palavra!) vindas do mar, à esquerda. Sorte que estas passaram rápido.

Nem precisei sair do palco ATP para presenciar uma das incógnitas do dia: Michael Rother & Friends Presents Neu! Music. Rother, sobrevivente guitarrista e operário do Neu! e do krautrock, poderia ter virado tanto um senhor sequelado e infantiloide quanto um sóbrio sexagenário germânico. Valeu a alternativa B. Todo de preto, cabelo escovinha marcial impecável, ele comandou por uma hora um princípio de transe coletivo forjado licitamente. Pouco informado até então, eu percebi só ali que um dos "friends" presentes era o cabuloso Steve Shelley, do Sonic Youth (cujas experimentações obviamente pagam muito tributo ao Neu!). Foi bem engraçado acompanhá-lo sorridente, visivelmente se divertindo ao tentar sustentar os 15 minutos da retidão metafísica que evoca cada "canção" de Rother e seu ex-parceiro Klaus Dinger. Shelley perdeu o tempo em vários momentos e tentou encaixar suas famosas viradas, o que deu mais graça e curvas à precisão retilínea do planador alemão.



Foi também no ATP que conferi o Sian Alice Group, pop sombrio com fragmentos experimentais à la Bat For Lashes, e descansei sorvendo mais uma San Miguel com a moçadinha jovial. Mais algumas dezenas de minutos, sendo alguns deles presenciando a vergonha alheia causada por um trecho do show das Slits no Pitchfork Stage, e estou de volta ao ATP para ver o Polvo, grandes subestimados do róque índico americano dos anos 90. É mais uma banda que parou no final daquela década e voltou após 10 anos, mas, ao contrário da maioria, sem a menor badalação e com um disco parrudo, In Prism. Os quatro cidadãos da Carolina do Norte podem até ter zero carisma, mas compensam com longas e intensas digressões instrumentais que prestam contas à dissonância desoladora do Slint e ao peso matemático do Helmet. As duas vozes, escassas e até meio dispensáveis, ficam em segundo plano perto das guitarras emaranhadas e do baterista ignorante. Já era noite, e as luzes escuras do palco casaram com precisão. Os presentes, em reverência, ensaiavam até um headbanging. Climático e memorável. A única falha foi ter sido curto demais.



No mesmo ATP rolou mais uma banda aguardada, o Built To Spill. Imagine uma orquestra com baixo, bateria e três guitarristas que rezam toda noite para o véio Neil Young entoando uma longa marcha nupcial, ou, melhor ainda, o acompanhamento para o nado sincronizado de quadrigêmeas, em um púlpito celeste e com lúpulo a vapor sendo borrifado. O Built To Spill estaria bem perto dessa maravilha. O problema é que o líder Doug Martsch, mesmo não sabendo quem é Tim Maia, pensa que é o próprio. A cada intervalo era um tal de "check mic one, check mic two, kick the bass, kick the guitar one..." para testar a paciência. Quando engrenava, porém, era uma beleza ver cada faixa sendo esticada ao máximo. Conclusão: alguns regalos guitarrísticos, mas, no todo, não chegou a levantar voo.

Saí correndo no meio da última música do BTS e uma de minhas favoritas, "Carry The Zero", para abrir caminho e chegar a uma posição decente no palco Ray Ban, onde o ressuscitado Sunny Day Real Estate tocaria a seguir. Era mais uma banda que eu não imaginava um dia conseguir ver e, certamente, entre as mais aguardadas. A sequência inicial, com "Friday", "In Circles" e "Seven", foi uma demonstração categórica de como fazer 1997 voltar do nada ao presente. Impressionante ver como Jeremy Enigk (o cristão bebedor de cerveja), Dan Hoerner (o boa-praça mor), o foo-fighter Nate Mendel (o músico mais foda, rei das escalas 'miojadas' no baixo) e William Goldsmith (o braço pesado) aparentemente não envelheceram nos últimos 10, 12 anos. A banda estava redondaça, pesada e generosa, priorizando seus dois primeiros e melhores discos. Pensei que eu era um dos poucos, mas o que não faltava era marmanjo emocionado, entre amigos e desconhecidos. A banda estava nitidamente empolgada e o próprio Dan Hoerner não parava de rir à toa, dizendo mais de uma vez mal poder acreditar no que via: alguns milhares de vozes cantando absolutamente tudo o que viesse, passando ao SDRE o recibo de relevância (mesmo que dentro daquele batido status 'cult').



Pensei que seria tarefa dura me entreter com o que viesse a seguir, mas lembrei que, no caso, o responsável por isso seria
Mr. Lee 'Scratch' Perry no Pitchfork Stage. Fato é que o ancião jamaicano precisa fazer pouco para ganhar quem está ali. Espécie de versão anti-heroi de James Brown - o cara que mais rala no showbiz -, Perry chega manso após uns 10 minutos de banda tocando, pendura seus (literalmente) trapos e balaios no pedestal do microfone e começa suas louvações a jah debaixo de uma sugestiva luz verde enfumaçada. Ok, ele foi o produtor que praticamente inventou o dub e ali desempenhava uns reggaes bem feijão-com-arroz, mas o carisma quase picareta do velho-noia e a competência da banda embolsaram fácil o público naquele meio de madrugada. Fica difícil exigir mais que isso de um septagenário entusiasta de pedras e cachimbos estranhos, e todos os presentes viram terceiro-mundistas sorridentes que dançam na areia sob a bênção de rastafaráái. Isso até que a próxima atração desvie novamente a atenção dos mal acostumados de plantão, é claro.

Ainda deu tempo de esticar mais um pouco até o Vice Stage - definitivamente o ambiente mais fétido do evento - e ver os californianos do Health promoverem uma implosão da música pop redondinha e palatável. Enquanto o cantante balbuciava no microfone qualquer coisa que parecesse letra a timbres suaves e fantasmagóricos, os outros três se revezavam entre programações, pedais de efeitos, instrumentos percussivos e dancinhas maníacas, quase sem interrupções. Muita textura abstrata e energia, suficientes para animar os semidefuntos daquele horário, mais de 3h30 da matina. Um desfecho de festival, digamos, mais apocalíptico do que integrado.



Tentativa de ranking para os três dias:
1. Wilco
2. Sunny Day Real Estate
3. Broken Social Scene
4. Pavement
5. Monotonix
6. Low
7. Shellac
8. Superchunk
9. Michael Rother & Friends
10. Polvo
11. Lee Perry
12. Built To Spill
13. The Fall
14. Psychic Paramount
15. Health
16. Spoon
17. Pixies
18. Sian Alice Group
19. Yeasayer

Para fechar a tampa, a lista de shows que lamentei ter perdido (por gostar da banda, por relatos de amigos que viram ou por serem potencialmente divertidas): Wire, Liquid Liquid, Tortoise, Mission of Burma, Les Savy Fav, Titus Andronicus, Best Coast, Ui, Charlatans, The Almighty Defenders, Gary Numan, Japandroids, Cold Cave, Fuck Buttons, Scout Niblett, Macaco Bong e El Mató a Un Policía Motorizado. Ah, e fora dessa lista teve também Pet Shop Boys, Orbital, Florence & The Machine, Grizzly Bear, Autoramas...

2011? A ver. :)

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