Foi esta quarta o esperado show de nome antieufemismos "An Evening With Greg Dulli & Mark Lanegan", a versão enxuta e intimista do Gutter Twins. E aqui estou eu até agora dando voltas para concatenar algumas generalidades sobre a noite de gala, mas antes fica o tira-gosto com "God's Children". Petisco não-superfaturado, porque aqui não é Bourbon Street não, fio.
Começando com a resposta malandra do Dulli para a viuvada grúngi: "We'll play everything we can, I promise. No one here is in a hurry, believe me". E o Lanegan (escondido ali no meio) puxando os primeiros versos de "All Along The Watchtower" no final, meu amigo, foi de lascar a safena.
Isso porque foi só a segunda da noite, e uma faixa de 2008. Epifanias à parte, foi uma apresentação honesta, meio curta para a expectativa dos presentes, mas jogando pela democracia. No set list, em média três canções de cada projeto da dupla - Afghan Whigs, Screaming Trees, Twilight Singers, Lanegan solo e alguns covers (José Gonzalez, Nick Drake).
Bourbon Street mais cheio do que o esperado, camaradagem na porta de entrada, iluminação baixa com direito a velas, Stella Artois long neck a seis reáu e o trio de distintos quarentões (o terceiro era o único músico de apoio) é recebido com um aguaçal de pedidos por velharias já nas três primeiras músicas. Logo ficou claro um dos poucos poréns da noite: Dulli e Lanegan demoraram anos para vir para cá, o que parece ter deixado confusa e consternada a fiel viuvada - menos histérica e numerosa que os fãs do Radiohead, é verdade, mas igualmente joselítica.
Greg Dulli, com a voz nos cascos e alternando entre o violão e o piano elétrico, começou comunicativo, mas depois falou pouco. Foi notável, ainda assim, a empolgação do sujeito de preto com o calor latino, sorrindo à toa mesmo durante músicas que ele não compôs, como "Dollar Bill". Mark Lanegan manteve a fama de lacônico nos melhores momentos e macambúzio nos piores, mal encarando a plateia ávida por "Nearly Lost You" e se concentrando na váibe do momento e nos barítonos roufenhos e cheios de viço, sua marca registrada.
Também merecedora de nota foi a volta dos dois no final, aquele momento "salve simpatia" para dar autógrafos e receber um calorzim humano. O assédio foi tamanho que dá para especular se os gêmeos da latrina carregarão menos a mão nos infortúnios e na armagura nos próximos trabalhos. Um negócio comovente. Fiquei espiando de longe, satisfeito com a melhor 1h20 da semana, proporcionada por dois dos macacos velhos mais dignos do róque americano que interessa desde 1992.
Difícil eleger a campeã da noite. Tavez "If I Were Going" ou "What Jail Is Like", as melhores do disco Gentlemen.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
Fliperama zen
O que mais me cativa no disco é o que passa inicialmente despercebido devido à gravação e execução rudimentar, feita por caras pouco carismáticos (ou, sem eufemismos, feios pra caralho) de 20 e poucos anos que até um ano antes expeliam um punk rock tosco e caótico. Em Zen Arcade a história já é outra e as nuances musicais e textuais se desdobram. O monólito começa a ser trabalhado. Nenhuma faixa está lá por acaso ou para encher linguiça, como aparentemente pode-se pensar, e quem procura o álbum por motivos aleatórios como "descobrir as raízes do emo" ou "conhecer uma barulheira punk das antigas" pode perder o que ele tem de melhor. Aliás, desde moleque eu ouvia falar que as letras do Jello Biafra eram feitas para combinar perfeitamente com o clima das músicas dos Dead Kennedys, mas não sabia que Bob Mould e Grant Hart (os dois vocalistas/compositores do Hüsker) tinham a mesma destreza. Assim, dá pra sacar que as faixas mais rápidas e gritadas de Zen Arcade falam sobre a confusão ou ressentimento do 'protagonista', enquanto que as mais melódicas e cadenciadas remetem a passagens reflexivas e existenciais.
Feio e bonito, agressivo e melódico, Zen Arcade é tudo o que o Green Day tenta pateticamente emular em seus últimos dois discos "políticos". Enfim, chega de frases feitas: leia o texto e ouça milhares de vezes o disco.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Miudezas de Liverpool
Walls And Bridges, o quinto de Lennon depois que o sonho acabou, é um belo exemplo de coadjuvante subestimado. Foi lançado em 1974, próximo ao fim da lost weekend de Lennon, período hedonista em que ele tirou férias de Yoko e passou uns tempos na California com uma rapaziada saudável e gente-fina como Keith Moon e Phil Spector em clima de acampamento de escoteiros. É impressionante constatar que o ritmo de festa da época pouco afetou a inspiração de Mr. Winston, que produziu seu terceiro melhor disco (depois de Plastic Ono Band e Imagine, claro). A textura e alguns timbres sugerem a atmosfera decadente típica do meio dos anos 70, com alguns arranjos emulando o suíngue dos sintetizadores de Stevie Wonder, num desbunde pré-disco, mas com a voz rasgada de Lennon descosturando qualquer suposta proximidade com a cafonice. Um destaque óbvio vai para a festeira "Whatever Gets You Through The Night", parceria com o sujeito-homem Elton John. A faixa marcou por ser a última que Lennon executou ao vivo, numa aparição surpresa durante um show do Eltão em Nova York naquele mesmo ano. Tem também a etérea "Number 9 Dream", com seu bizarro refrão "Ah! Böwakawa poussé, poussé" e uma voz feminina do além chamando "John...", como se tentasse acordá-lo do sonho. Poderia ser a Yoko na gravação, mas é May Pang, a assistente pessoal (em todos os sentidos, consentida inclusive pela titular). Por fim, a rancorosa "Steel and Glass" tem um belíssimo arranjo orquestrado e um desempenho vocal acachapante. O Beck deve ter ouvido bastante enquanto fazia o dilacerado Sea Change.
Um rodapé interessante dessa fase do Walrus é o fato de ele ter participado da composição de "Fame", indefectível hit bowieano lançado em 75. Mais uma prova de que a perfeição também se alcança pelas tortuosas vias da pândega.
Outro disco pouco incensado é o Brainwashed, do George, lançado em 2002, um ano após sua morte. Com produção finalizada pelo filho Dhani Harrison e pelo compadre Jeff Lynne (da Electric Light Orchestra, banda subestimada que um dia merecerá texto por aqui), é aquele trabalho menor e outonal, mas bonito pra dedéu. Como de costume, George flerta com elementos étnicos e espirituais e toca bastante ukulele, aquele violãozinho de quatro cordas, mas sempre favorecendo as boas melodias e evitando o pedantismo. Sabendo que tinha pouco tempo de vida, o cara conseguiu criar um momento terno e digno, sem as arestas da pieguice. Confira a faixa-título, um apoteótico róque de tiozinho dos bons (ver post abaixo) com a assinatura de Mr. Lynne nas harmonias vocais.
Já estou encaminhado nas pequenas pérolas da discografia do Macca, como a tosquice do bem Wild Life, mas fica pra uma próxima. E Ringão, meu chapa, talvez você seja o cara mais cool e boa praça do pop, mas o "rival" Dennis Wilson te deixou no chinelo na hora da verdade.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Voltando à programação normal
Já que o post anterior rendeu as mais intrigantes interpretações, melhor desanuviar escrevendo mais um pouco sobre música, hehe.
O Guided By Voices é uma das minhas mais recentes melhores bandas de todos os tempos e pode até ser batida para muitos, mas admito que comecei a gostar de verdade tardiamente. Tinha preconceito com os discos porcamente gravados até a metade dos anos 90, cheios daquele orgulho meio estéril de ser lo-fi e cada um com umas 25 pequenas pérolas da melodia soterradas numa gravação de fundo de quintal. Não conseguia ver o diamante por baixo da fuligem. Muita gente - a maioria proveniente ou com o pé no indie - via o vocalista e dono da banda, Robert Pollard, como um herói. Pra mim era difícil de entender, visto que se trata de um sujeito mais maduro (deve ter mais de 50 hoje) e com a fisionomia de um corretor de imóveis. Também não sacava por que a Trama despejava boa parte da discografia deles por aqui. Mas há uns 5 anos resolvi pegar aleatoriamente um desses discos para ouvir e tive a sorte de escolher justo o ótimo Universal Truths And Cycles (2002), da fase mais, digamos, "adulta" do GBV. Uma canção mais perfeita que a outra, do tipo que acaba no momento certo, sem gorduras, como os bons discos dos anos 60.
Comecei a reparar que o charme dessa banda de Ohio (EUA) é justamente essa beleza desconjuntada e falta total de glamour. Imagine as harmonias vocais e a pegada do Who executadas com algum desleixo, por gente que prefere gastar o tempo livre lendo ou bebendo, e não ensaiando. É róque para tiozinho com sangue quente e sem medo de ser feliz (desculpe o clichê). Aquele que cai de para-quedas numa festa só com gente abaixo de 20 anos e enche a cara sem a menor cerimônia, ou o que fica nervoso ao ligar para a dona que lhe passou o número num flerte no supermercado.
Para vencer rápido o preconceito pelo qual passei, a dica é começar pelos discos com gravação decente, a partir do Mag Earwhig! (1998), quando Mr. Pollard dispensou toda a banda antiga e recrutou o pessoal da garageira Cobra Verde. O seguinte, Do The Collapse (1999), abre com a ótima "Teenage FBI" e é um dos mais bem produzidos, a cargo do leprechaun Ric Ocasek (ex-Cars - lembra da melosa "Drive"?). Mas o campeão aqui em casa, pelo menos por enquanto, é o Isolation Drills (2001). Difícil não simpatizar pelo quarentão cantando "Glad Girls". A letra e a melodia são tão simples que conseguem ser ridículas e geniais ao mesmo tempo. Não estranharia se soubesse da aprovação do velho Macca.
No vídeo abaixo eles ainda por cima tocam na Amoeba Records, provavelmente a melhor loja de discos do mundo (loja de discos? Que negócio anacrônico). Repara no furor do chute no ar desengonçado que ele dá logo no início. =)
Não aguentei e postei mais um:
O Guided By Voices é uma das minhas mais recentes melhores bandas de todos os tempos e pode até ser batida para muitos, mas admito que comecei a gostar de verdade tardiamente. Tinha preconceito com os discos porcamente gravados até a metade dos anos 90, cheios daquele orgulho meio estéril de ser lo-fi e cada um com umas 25 pequenas pérolas da melodia soterradas numa gravação de fundo de quintal. Não conseguia ver o diamante por baixo da fuligem. Muita gente - a maioria proveniente ou com o pé no indie - via o vocalista e dono da banda, Robert Pollard, como um herói. Pra mim era difícil de entender, visto que se trata de um sujeito mais maduro (deve ter mais de 50 hoje) e com a fisionomia de um corretor de imóveis. Também não sacava por que a Trama despejava boa parte da discografia deles por aqui. Mas há uns 5 anos resolvi pegar aleatoriamente um desses discos para ouvir e tive a sorte de escolher justo o ótimo Universal Truths And Cycles (2002), da fase mais, digamos, "adulta" do GBV. Uma canção mais perfeita que a outra, do tipo que acaba no momento certo, sem gorduras, como os bons discos dos anos 60.
Comecei a reparar que o charme dessa banda de Ohio (EUA) é justamente essa beleza desconjuntada e falta total de glamour. Imagine as harmonias vocais e a pegada do Who executadas com algum desleixo, por gente que prefere gastar o tempo livre lendo ou bebendo, e não ensaiando. É róque para tiozinho com sangue quente e sem medo de ser feliz (desculpe o clichê). Aquele que cai de para-quedas numa festa só com gente abaixo de 20 anos e enche a cara sem a menor cerimônia, ou o que fica nervoso ao ligar para a dona que lhe passou o número num flerte no supermercado.
Para vencer rápido o preconceito pelo qual passei, a dica é começar pelos discos com gravação decente, a partir do Mag Earwhig! (1998), quando Mr. Pollard dispensou toda a banda antiga e recrutou o pessoal da garageira Cobra Verde. O seguinte, Do The Collapse (1999), abre com a ótima "Teenage FBI" e é um dos mais bem produzidos, a cargo do leprechaun Ric Ocasek (ex-Cars - lembra da melosa "Drive"?). Mas o campeão aqui em casa, pelo menos por enquanto, é o Isolation Drills (2001). Difícil não simpatizar pelo quarentão cantando "Glad Girls". A letra e a melodia são tão simples que conseguem ser ridículas e geniais ao mesmo tempo. Não estranharia se soubesse da aprovação do velho Macca.
No vídeo abaixo eles ainda por cima tocam na Amoeba Records, provavelmente a melhor loja de discos do mundo (loja de discos? Que negócio anacrônico). Repara no furor do chute no ar desengonçado que ele dá logo no início. =)
Não aguentei e postei mais um:
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O problema é todo seu
Hoje seria o tão esperado dia de atualizar esta porcaria, mas uma nova série de pataquadas e migués alheios na área profissional arrancaram meu humor como se este fosse um tumor maligno. As ideias que eu vinha digerindo à base de laxante para serem modeladas em um produto final limpinho, cheiroso e facilmente consumível se dispersaram, tornando o trabalho ainda mais árduo. Areia no canal retal nunca é demais. Principalmente depois de olharmos para o nosso próprio umbigo encardido por dias e dias e querermos tirar todo esse ranço com resina, esfregando com um maço de estopa embebido em thinner.
A primeira opção, como sempre, é entrar na primeira comporta lateral e falar sobre música, sobre aquele disco Xis que acabou de cair na rede ou aquela banda Schreiffels que passou batida por anos e que de uma hora para outra se tornou um vício digno de cachimbadas em caneta Bic, um terreno fértil para a escapada da realidade de todas as horas. Escapadas já promovidas com maestria nonsense pelo Captain Beefheart, por exemplo: um demente sagaz, rápido e bulbuloso. Mas fico me perguntando mais uma vez - coisa de doente mental que repete a mesma ladainha para a rachadura da parede - quem entra aqui atrás de discos e dicas e novas musiquinhas para acalmar/atiçar o espírito? O que você ganha me elogiando se nem leu o texto inteiro? Aliás, quem entra aqui e por que entra? Além dos três caríssimos de sempre, claro.
O que me levou a repensar em um dos meus recentes elefantes brancos de louça na cristaleira, o podcast. Sim, este que está com link aí ao lado. Se você que lê isto aqui por acaso é um incauto, não me conhece e não se deu ao menor trabalho de rolar a tela para baixo até um minipost em que anuncio a abertura da porta do cafofo; se você até tem certa curiosidade de ouvir sons a que esteja pouco acostumado, mas carece de sugestões; se você é um arrivista que enche o saco até do vô no além atrás de um favorzinho inofensivo e não tem a menor dignidade de retribuir; se você tem algum tempo ocioso no meio do horário de trabalho ou à noite ou de manhã ou quando for, favor clicar no link à direita. É gratuito e não precisa preencher cadastro para ouvir. Basta ter placa de som na sua máquina e (de preferência) fones de ouvido, pois a gravação está a léguas de ser profissa. A questão é que de vez em quando dou uma fuçada nas estatísticas de lá e não chego nunca a uma conclusão. Se a coisa tá rolando legal, se não acrescenta merda alguma, se a qualidade do som é de fundo de quintal, se minha vox sexy est, se tudo soa como redundância e arroubo wannabe. Pessoalmente, me diverte e me dá um certo trabalho, na mesma medida. Ah, e por último, se você escreve, gosta daquilo que fala, evita colocar vírgula entre sujeito e verbo e tá à toa na pequena área, estamos aí. Um link esperto, uma palavra bem colocada, uma cerveja ou um café no momento certo e o mau humor é morto com uma só cajadada na moleira.
Fim provisório da sessão "anybody out there?". O que sei é que tá quente aqui dentro e frio aí fora. Se você leu até aqui esta cartilagem de galinha em forma de texto, o problema é seu.
E para sumir de vez com o tarja preta, aí vai o vídeo daquele famoso show dos Cramps num hospital psiquiátrico americano:
A primeira opção, como sempre, é entrar na primeira comporta lateral e falar sobre música, sobre aquele disco Xis que acabou de cair na rede ou aquela banda Schreiffels que passou batida por anos e que de uma hora para outra se tornou um vício digno de cachimbadas em caneta Bic, um terreno fértil para a escapada da realidade de todas as horas. Escapadas já promovidas com maestria nonsense pelo Captain Beefheart, por exemplo: um demente sagaz, rápido e bulbuloso. Mas fico me perguntando mais uma vez - coisa de doente mental que repete a mesma ladainha para a rachadura da parede - quem entra aqui atrás de discos e dicas e novas musiquinhas para acalmar/atiçar o espírito? O que você ganha me elogiando se nem leu o texto inteiro? Aliás, quem entra aqui e por que entra? Além dos três caríssimos de sempre, claro.
O que me levou a repensar em um dos meus recentes elefantes brancos de louça na cristaleira, o podcast. Sim, este que está com link aí ao lado. Se você que lê isto aqui por acaso é um incauto, não me conhece e não se deu ao menor trabalho de rolar a tela para baixo até um minipost em que anuncio a abertura da porta do cafofo; se você até tem certa curiosidade de ouvir sons a que esteja pouco acostumado, mas carece de sugestões; se você é um arrivista que enche o saco até do vô no além atrás de um favorzinho inofensivo e não tem a menor dignidade de retribuir; se você tem algum tempo ocioso no meio do horário de trabalho ou à noite ou de manhã ou quando for, favor clicar no link à direita. É gratuito e não precisa preencher cadastro para ouvir. Basta ter placa de som na sua máquina e (de preferência) fones de ouvido, pois a gravação está a léguas de ser profissa. A questão é que de vez em quando dou uma fuçada nas estatísticas de lá e não chego nunca a uma conclusão. Se a coisa tá rolando legal, se não acrescenta merda alguma, se a qualidade do som é de fundo de quintal, se minha vox sexy est, se tudo soa como redundância e arroubo wannabe. Pessoalmente, me diverte e me dá um certo trabalho, na mesma medida. Ah, e por último, se você escreve, gosta daquilo que fala, evita colocar vírgula entre sujeito e verbo e tá à toa na pequena área, estamos aí. Um link esperto, uma palavra bem colocada, uma cerveja ou um café no momento certo e o mau humor é morto com uma só cajadada na moleira.
Fim provisório da sessão "anybody out there?". O que sei é que tá quente aqui dentro e frio aí fora. Se você leu até aqui esta cartilagem de galinha em forma de texto, o problema é seu.
E para sumir de vez com o tarja preta, aí vai o vídeo daquele famoso show dos Cramps num hospital psiquiátrico americano:
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Preguiça passageira
Prometi um post sobre o disco novo do Depeche Mode, Sounds Of The Universe. Mas nada de teorias rudimentares ao acaso por ora. Aliás, alguém me avise se souber de um equivalente ao Google Analytics que forneça estatísticas sobre os gatos pingados que entram aqui e baixam os discos que passo adiante. Não é questão de serviço público, mas curiosidade.
Eu estava até pensando no que escreveria enquanto não tinha tempo de fazer isso, mas agora que estou desocupado... serve se eu só passar o link pra baixar? Tá aí no começo do texto, em azul. Serve se eu escutá-lo pela 15ª vez enquanto escrevo isto aqui e admitir que estou começando a gostar, embora ainda perca feio para o anterior, Playing The Angel? Posso dizer também que tem duas boas pérolas ali, "Fragile Tension" e "In Sympathy", que lembram várias outras mais antigas e por isso mesmo são o feijão com arroz palatável de bases eletrônicas com bom gosto e formato de single que se espera deles. E se eu disser que o tiozinho loiro afetado que comanda a nave, Martin Gore, compõe e executa tudo muito bem, mas que deveriam proibir o figura de fazer voz principal? Já me apontou um colega: a faixa "Jezebel", não bastasse o nome, tem uma interpretação vocal digna de um Michael Bolton. Também dá para conjecturar que os discos solo do Dave Gahan estão fazendo bem para o Moda Passageira (embora só as viúvas da banda deem bola), pois o vocalista está compondo mais e deixando os rascunhos de ideias e entulhos musicais para esse projeto paralelo quase invisível.
Bom, deu para notar que os comentários foram descaradamente preguiçosos e refletem o meu momento de meio de semana. Durante a feitura, soube que a banda cancelou uns shows no Leste Europeu devido a uns revertérios (sei...) do vocalista. Faço votos para que não façam o mesmo na época da provável vinda para cá, em outubro, e que a performance seja menos indolente que estas linhas aqui. Mas os ânimos de momento são voláteis e podem engatar uma segunda a qualquer virada de esquina. Assim como Sounds Of The Universe, que melhora com o passar do tempo após o enfado causado na primeira ouvida.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Estado de sítio
Falei tanto e acabei nem indo à Virada Cultural. O pretexto era irrecusável: três dias low-profile no sítio com amigos caríssimos (do melhor tipo que tem por aí), família do amigo gentilíssima, futebolzinho sedentário, terra na sola do pé e comilança. Optar entre fugir e ficar na cidade no único momento do ano em que ela se transforma em outra é, no mínimo, covardia. Sair do lugar sempre ganha do abstrair.
A questão é que ultimamente tenho conseguido enfiar o pé pra fora de SP menos do que gostaria. A grana apertada e a rotina estranha de trabalho não têm colaborado. Só para uma amiga neoparanaense, por exemplo, devo visita há uns seis meses. E cada vez mais funciono à base do susto, sem me programar demais. Dou cano em programa marcado com semanas de antecedência, mas a chance de você me encontrar se me ligar num sábado às onze e meia da noite é grande. No último feriado foi assim. A viagem não foi adiada aos 40 do segundo tempo. E a própria relação com a megalópole tem sido um xadrez estranho entre a monotonia contínua de vários curtos prazos seguidos e a dúvida sobre o que estarei fazendo no mês seguinte. Nada mais apropriado que um município chamado Piedade para dar aquele empurrão no momento de recarga.
Aliás, li poucos comentários empolgados com a Virada deste ano - sempre vinham com ressalvas do entulho de lixo, da muvuca e do aroma de mijo - e ainda terei a vantagem de sublimar os shows do Palco Brega até o ano que vem. Correr por estradinhas de terra ouvindo o Rei Robertão mandando "meu cachorro me sorriu latindo" por enquanto tem mais apelo do que pensar no Wando limpando o suor da testa com uma calcinha.
A questão é que ultimamente tenho conseguido enfiar o pé pra fora de SP menos do que gostaria. A grana apertada e a rotina estranha de trabalho não têm colaborado. Só para uma amiga neoparanaense, por exemplo, devo visita há uns seis meses. E cada vez mais funciono à base do susto, sem me programar demais. Dou cano em programa marcado com semanas de antecedência, mas a chance de você me encontrar se me ligar num sábado às onze e meia da noite é grande. No último feriado foi assim. A viagem não foi adiada aos 40 do segundo tempo. E a própria relação com a megalópole tem sido um xadrez estranho entre a monotonia contínua de vários curtos prazos seguidos e a dúvida sobre o que estarei fazendo no mês seguinte. Nada mais apropriado que um município chamado Piedade para dar aquele empurrão no momento de recarga.
Aliás, li poucos comentários empolgados com a Virada deste ano - sempre vinham com ressalvas do entulho de lixo, da muvuca e do aroma de mijo - e ainda terei a vantagem de sublimar os shows do Palco Brega até o ano que vem. Correr por estradinhas de terra ouvindo o Rei Robertão mandando "meu cachorro me sorriu latindo" por enquanto tem mais apelo do que pensar no Wando limpando o suor da testa com uma calcinha.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
E o Depeche Mode enfim anuncia vinda para o longínquo outubro. O disco recém-lançado deles, Sounds Of The Universe, ainda não desceu macio, mas quero escrever sobre ele em breve e conto com o bom humor no feriado para acolhê-lo melhor. Já o show é imperdível, sem dúvida. É só conferir o DVD Touring The Angel, da megaturnê do acachapante disco anterior. Dizem que o vocal do Dave Gahan é pleibequeado ao vivo, que a banda é cafona. Balela. Digo mais: o depechão velho-de-guerra ficou muito melhor nos anos 90 e 00, apesar de a maioria ensacá-los como mais um produto nostálgico dos 80's.
Confere aí o bizarro clipe novo.
Confere aí o bizarro clipe novo.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Nós somos os robôs
E lá se vai um mês preenchido com muito trabalho repetitivo. Tinha quase me desacostumado disso, por ultimamente basear minha repetição na falta de rotina. A pasmaceira da folga na quarta para virar a sexta à noite na labuta contrastava com o nada entediante frio na barriga pelo aperto de grana. Mas nada como mais um "sim" desafogador para retomar alguns velhos vícios e voltar a deixar de ver as madrugadas como partes divertidas do dia. Trabalhar com o modo mecânico ativado é fácil e é traiçoeiro. Se puder, faça em casa, com intervalos. Se a amiga chamar para um cinema ou o camarada cantar a bola da cerveja, por mais que pareça chover no molhado dizer isso, não hesite. Caso contrário, você vai sonhar com aquelas palavras se combinando feito peças do Tetris.
Pode ainda ficar pior se o seu caso (como foi o meu) for lidar com textos altamente técnicos e descontextualizados, em que você precisa se coçar para imaginar onde fica o mancal da bronzina da biela do eixo propulsor do solenóide (ainda com grafia pré-reforma) da marcha. Mais Chaplin com uma chave de fenda e a esteira de fábrica, impossível. Agora, se você saca de motor de carro, não tripudie.
Já nas "horas vagas", um pouco mais do mesmo: canetão vermelho, gente achando que inventou a roda vomitando a quintessência do clichê informativo, essas coisas. Nada de especial, e até já foi mais engraçado antes. O negócio é não se envolver, máxima que eu ouço desde o segundo ano da faculdade. Trabalho é só trabalho, etc. Tudo aqui pode soar um tanto modorrento, mas o ponto é que a moenda recomeça a funcionar antes de você mesmo reparar.
Pode ainda ficar pior se o seu caso (como foi o meu) for lidar com textos altamente técnicos e descontextualizados, em que você precisa se coçar para imaginar onde fica o mancal da bronzina da biela do eixo propulsor do solenóide (ainda com grafia pré-reforma) da marcha. Mais Chaplin com uma chave de fenda e a esteira de fábrica, impossível. Agora, se você saca de motor de carro, não tripudie.
Já nas "horas vagas", um pouco mais do mesmo: canetão vermelho, gente achando que inventou a roda vomitando a quintessência do clichê informativo, essas coisas. Nada de especial, e até já foi mais engraçado antes. O negócio é não se envolver, máxima que eu ouço desde o segundo ano da faculdade. Trabalho é só trabalho, etc. Tudo aqui pode soar um tanto modorrento, mas o ponto é que a moenda recomeça a funcionar antes de você mesmo reparar.
domingo, 19 de abril de 2009
A sarjeta é aqui
E corre o boca-a-boca sobre a vinda do Gutter Twins a São Paulo (e a Buenos Aires e a Santiago) em julho. Comentei sobre o belíssimo disco de estreia dos Twins ano passado, assim que coloquei os ouvidos nele. Tão áspero e dilacerado quanto as melhores gravações que Greg Dulli e Mark Lanegan vêm soltando recentemente, Saturnalia, o dito cujo, impressiona por manter a média de quase um ótimo disco por ano. Uns seis meses depois eles liberaram um EP virtual chamado Adorata, quase tão bonito quanto o anterior e cheio de covers inusitadas. Nem quando o Afghan Whigs e o Screaming Trees, bandas de origem dos gêmeos da sarjeta, estavam na ativa, eles eram tão produtivos (leia aqui sobre os outros projetos atuais da dupla). Enfim, usufrua a lei do menor esforço e baixe agora os dois discos de 2008.
Mas não consigo me empolgar com a notícia. Ainda não. Primeiro porque o myspace deles divulga apenas uma data no Bourbon Street. Nunca estive no requintado recinto, mas sei que a plateia assiste aos shows em mesas, com consumação igualmente luxuosa. Sem contar o próprio ingresso, abusivo até para quem ganha em euro. Foi o Bourbon que recebeu o famoso "show de despedida" do B.B. King cobrando a mixaria de 900 reais para ouvir, sem o direito de molhar o beiço, o velho bluesman debulhar sua Lucille. Nada de Gutter Twins em palcos médios e acessíveis como a Choperia (ou o Teatro) do Sesc, a Easy ou mesmo o Studio SP, mais próximos do universo deles. Não por enquanto.
O segundo porém é a possibilidade de eles virem sem a banda completa, como vinham fazendo recentemente, para tocarem versões mais, digamos, 'intimistas' de músicas de todos os projetos dos caras. Apesar da vontade de conferir ao vivo "Hit The City" (da Mark Lanegan Band) ou "Bonnie Brae" (do Twilight Singers), entre inúmeras outras, o cheiro de solução acochambrada é inevitável. E há pouco tempo tivemos outras visitas do tipo no Brasil, com gente como Bonnie "Prince" Billy e Young Gods, para citar poucos, desempenhando em formatos low-profile e causando certo desapontamento por terem sido menos do que poderiam.
Resta esperar esses longos dois meses até lá e torcer para que marquem mais datas em locais que não sejam adeptos da extorsão, de preferência com a banda inteira. Tal como o trio Medeski, Martin & Wood, que fez um dos melhores shows do ano passado por aqui em duas noites esgotadas no Sesc Vila Mariana e umazinha no Bourbon. Com certeza também não faltará público para Dulli e Lanegan. E convenhamos: se eles não derem nem uma chegada pelo famigerado Baixo Augusta, poderão trocar o nome para The Fancy Twins.
Mas não consigo me empolgar com a notícia. Ainda não. Primeiro porque o myspace deles divulga apenas uma data no Bourbon Street. Nunca estive no requintado recinto, mas sei que a plateia assiste aos shows em mesas, com consumação igualmente luxuosa. Sem contar o próprio ingresso, abusivo até para quem ganha em euro. Foi o Bourbon que recebeu o famoso "show de despedida" do B.B. King cobrando a mixaria de 900 reais para ouvir, sem o direito de molhar o beiço, o velho bluesman debulhar sua Lucille. Nada de Gutter Twins em palcos médios e acessíveis como a Choperia (ou o Teatro) do Sesc, a Easy ou mesmo o Studio SP, mais próximos do universo deles. Não por enquanto.
O segundo porém é a possibilidade de eles virem sem a banda completa, como vinham fazendo recentemente, para tocarem versões mais, digamos, 'intimistas' de músicas de todos os projetos dos caras. Apesar da vontade de conferir ao vivo "Hit The City" (da Mark Lanegan Band) ou "Bonnie Brae" (do Twilight Singers), entre inúmeras outras, o cheiro de solução acochambrada é inevitável. E há pouco tempo tivemos outras visitas do tipo no Brasil, com gente como Bonnie "Prince" Billy e Young Gods, para citar poucos, desempenhando em formatos low-profile e causando certo desapontamento por terem sido menos do que poderiam.
Resta esperar esses longos dois meses até lá e torcer para que marquem mais datas em locais que não sejam adeptos da extorsão, de preferência com a banda inteira. Tal como o trio Medeski, Martin & Wood, que fez um dos melhores shows do ano passado por aqui em duas noites esgotadas no Sesc Vila Mariana e umazinha no Bourbon. Com certeza também não faltará público para Dulli e Lanegan. E convenhamos: se eles não derem nem uma chegada pelo famigerado Baixo Augusta, poderão trocar o nome para The Fancy Twins.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Flanada anual
Acabei de ver a programação da Virada Cultural deste ano e mais uma vez o evento promete. Não digo isso apenas pelas pencas de atrações grátis ao ar livre em vários palcos espalhados pelo glorioso centrão paulistano, mas principalmente pela oportunidade de percorrer todo esse intrigante universo a pé durante um dia - e boa parte de madrugada, o que é mais legal ainda. Nem parece o mesmo lugar.
Em 2007, ano daquele fatídico show dos Racionais na Sé, cometi a infame proeza de ficar em casa. Pelos causos que ouvi, passei a semana seguinte hediondamente arrependido. Ano passado, quando fui pela primeira vez, esqueci por vários momentos o que aquela região encantadora e tenebrosa representa nos demais dias do ano.
Cheguei cedo com meu irmão pra pegar um show memorável do Mundo Livre em frente ao ex-estágio Pateo do Collegio. A sequência tortuosa teve a boa velharada Germano Mathias e Vai-Vai, a musa Marina de la Riva, a quebradeira do Macaco Bong, vários amigos, latinhas de cevada e conhecidos pelo caminho e o desfecho com uma bela sequência de DJs na tenda da Quintino Bocaiuva, onde rolou new wave e surf music com clima de Carnaval do interior de Minas. Passei pela tangente de uma procissão atrás do Zé Ramalho na São João. Nem cheguei perto das filas do Teatro Municipal e devo passar longe de novo em 2009. Me dei por satisfeito umas quatro da matina e o metrô me despejou de volta até a Barra Funda num horário em que ele costuma dormir. Ok, quem tiver conferido todo o cronograma dirá que perdi gente mais interessante, como a cariocada Orquestra Imperial e Do Amor, ou mesmo os gagás Jorge Ben, Mutantes e Afrika Bambaataa. I couldn't care less. Foi uma noite sensacional.
Este ano, uma das metas é conferir alguma coisa do Palco Brega, no Arouche. Destaque para uma sequência genial: Wando, Reginaldo Rossi e Beto Barbosa. Benito di Paula abre os trabalhos no sábado. No dia seguinte tem Odair José, o Roger Waters do rodízio de carnes. Tudo grátis. Diversão garantida. Ano passado perdi o Nelson Ned por lá, mas reza a lenda de que foi melancólico em excesso, uma espécie de Elvis fase Las Vegas versão paraolímpica. Por outro lado, é legal se programar para a Virada justamente pela chance pequena de você conseguir ver tudo o que pretende. Com certeza você vai encontrar alguém que conhece quando estiver cruzando a Barão de Itapetininga ou comprando Skol de isopor no Viaduto do Chá. E provavelmente a sua rota vai mudar por conta dessa(s) outra(s) pessoa(s) no caminho.
O lamuriento de plantão poderá dizer que várias atrações, refletindo o panorama da música pop brasileira atual, são caidonas. Ou que o evento estimula o que há de mais sórdido no tenso e desgostoso cidadão da capital em caráter de multidão. Talvez tudo isso seja em parte verdade (a má fé às vezes também se manifesta por aqui). Mas, acima de tudo, é uma das poucas chances atuais de o calejado morador paulisteño ainda se surpreender com a cidade. E o que é melhor: sem pagar estacionamento, sem pegar fila (salvo exceções), sem gente nervosa e sem ficar entalado na Marginal com 257 Peugeots à sua frente. É daqui a duas semanas.
Em 2007, ano daquele fatídico show dos Racionais na Sé, cometi a infame proeza de ficar em casa. Pelos causos que ouvi, passei a semana seguinte hediondamente arrependido. Ano passado, quando fui pela primeira vez, esqueci por vários momentos o que aquela região encantadora e tenebrosa representa nos demais dias do ano.
Cheguei cedo com meu irmão pra pegar um show memorável do Mundo Livre em frente ao ex-estágio Pateo do Collegio. A sequência tortuosa teve a boa velharada Germano Mathias e Vai-Vai, a musa Marina de la Riva, a quebradeira do Macaco Bong, vários amigos, latinhas de cevada e conhecidos pelo caminho e o desfecho com uma bela sequência de DJs na tenda da Quintino Bocaiuva, onde rolou new wave e surf music com clima de Carnaval do interior de Minas. Passei pela tangente de uma procissão atrás do Zé Ramalho na São João. Nem cheguei perto das filas do Teatro Municipal e devo passar longe de novo em 2009. Me dei por satisfeito umas quatro da matina e o metrô me despejou de volta até a Barra Funda num horário em que ele costuma dormir. Ok, quem tiver conferido todo o cronograma dirá que perdi gente mais interessante, como a cariocada Orquestra Imperial e Do Amor, ou mesmo os gagás Jorge Ben, Mutantes e Afrika Bambaataa. I couldn't care less. Foi uma noite sensacional.
Este ano, uma das metas é conferir alguma coisa do Palco Brega, no Arouche. Destaque para uma sequência genial: Wando, Reginaldo Rossi e Beto Barbosa. Benito di Paula abre os trabalhos no sábado. No dia seguinte tem Odair José, o Roger Waters do rodízio de carnes. Tudo grátis. Diversão garantida. Ano passado perdi o Nelson Ned por lá, mas reza a lenda de que foi melancólico em excesso, uma espécie de Elvis fase Las Vegas versão paraolímpica. Por outro lado, é legal se programar para a Virada justamente pela chance pequena de você conseguir ver tudo o que pretende. Com certeza você vai encontrar alguém que conhece quando estiver cruzando a Barão de Itapetininga ou comprando Skol de isopor no Viaduto do Chá. E provavelmente a sua rota vai mudar por conta dessa(s) outra(s) pessoa(s) no caminho.
O lamuriento de plantão poderá dizer que várias atrações, refletindo o panorama da música pop brasileira atual, são caidonas. Ou que o evento estimula o que há de mais sórdido no tenso e desgostoso cidadão da capital em caráter de multidão. Talvez tudo isso seja em parte verdade (a má fé às vezes também se manifesta por aqui). Mas, acima de tudo, é uma das poucas chances atuais de o calejado morador paulisteño ainda se surpreender com a cidade. E o que é melhor: sem pagar estacionamento, sem pegar fila (salvo exceções), sem gente nervosa e sem ficar entalado na Marginal com 257 Peugeots à sua frente. É daqui a duas semanas.
domingo, 12 de abril de 2009
Resolvi republicar os posts mais antigos e deixá-los espalhados pelo histórico. A medida não é revolucionária, apenas estética. Afinal, o que é subversivo hoje? Comprar uma estante nova para aquela parede subutilizada pode até trazer uma lufada de vento fresco para minha caixa torácica, mas vai no máximo me fazer admirá-la por horas e horas embasbacado. Tascar uma casca de banana na varanda do vizinho ganjaman do andar de baixo me transforma apenas no arquetípico orangotango sociopata de mesmo porte do exalador de erva e tecneira da qualidade mais ralé.
E porra, o que toda essa punhetagem rasteira tem a ver com republicar posts velhos? Sei lá, para tudo se usa um pretexto. Toda hora a gente pensa que está dando um cavalo de pau na própria vida, sem perceber na maioria das vezes que o giro é em falso.
E porra, o que toda essa punhetagem rasteira tem a ver com republicar posts velhos? Sei lá, para tudo se usa um pretexto. Toda hora a gente pensa que está dando um cavalo de pau na própria vida, sem perceber na maioria das vezes que o giro é em falso.
terça-feira, 24 de março de 2009
Como desaparecer totalmente
That there
That's not me
I go
Where I please
I walk through walls
I float down the Liffey
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
In a little while
I'll be gone
The moments already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Strobe lights and blown speakers
Fireworks and hurricanes
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Em que momento você descobre que se tornou invisível? Muitas vezes, é não muito antes de desaparecer de fato, a poucas gradações de cores antes de chegar à ausência completa delas. O peso do corpo ainda te mantém em câmera lenta e sem saber exatamente para que direção prosseguir. Já o invisível pode ir para qualquer lado - simultaneamente, inclusive. É a conquista da onipresença pós-vida. Não adianta mais pedir ajuda, reclamar, tentar se olhar por fora e se reformular. Tampouco vale ser altruísta, sumir por meio da atenção ao próximo, usar as ideias vizinhas como arbustos. Estratégias de fuga so o tornaram ainda menos presente para si mesmo. Nada mais funciona. Nem as muletas da indulgência e da preservação consigo próprio surtem mais tanto efeito. Afinal, que adianta usar o último lote de energia se você mesmo já se considera fora de alcance? Algum espaço continua sendo ocupado: um peso incolor que remotamente talvez cause certo incômodo alheio apenas por fazer lembrar de sua própria sobrevivência. De tanto se frustrar procurando espelho na casa dos outros, o ser invisível assumiu-se nesta atual condição: nem ele mesmo se vê, não se pertence mais.
That's not me
I go
Where I please
I walk through walls
I float down the Liffey
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
In a little while
I'll be gone
The moments already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Strobe lights and blown speakers
Fireworks and hurricanes
I'm not here
This isn't happening
I'm not here
I'm not here
Em que momento você descobre que se tornou invisível? Muitas vezes, é não muito antes de desaparecer de fato, a poucas gradações de cores antes de chegar à ausência completa delas. O peso do corpo ainda te mantém em câmera lenta e sem saber exatamente para que direção prosseguir. Já o invisível pode ir para qualquer lado - simultaneamente, inclusive. É a conquista da onipresença pós-vida. Não adianta mais pedir ajuda, reclamar, tentar se olhar por fora e se reformular. Tampouco vale ser altruísta, sumir por meio da atenção ao próximo, usar as ideias vizinhas como arbustos. Estratégias de fuga so o tornaram ainda menos presente para si mesmo. Nada mais funciona. Nem as muletas da indulgência e da preservação consigo próprio surtem mais tanto efeito. Afinal, que adianta usar o último lote de energia se você mesmo já se considera fora de alcance? Algum espaço continua sendo ocupado: um peso incolor que remotamente talvez cause certo incômodo alheio apenas por fazer lembrar de sua própria sobrevivência. De tanto se frustrar procurando espelho na casa dos outros, o ser invisível assumiu-se nesta atual condição: nem ele mesmo se vê, não se pertence mais.
quarta-feira, 18 de março de 2009
A vez
Não se tem o que dizer, mas sempre é preciso. Se não for dito, fica-se para trás, fora do alcance do retrovisor. E nem um pedido pela vez da palavra em público será suficiente. É como sair correndo feito peru bêbado em plena avenida. Como aquele jogo Frogger, do Atari. Um amontoado de sapos esmagados que nem tomate. O seu balbuciar inicial é atropelado. A sua fração de segundo de formulação é amputada. Vira uma situação forçada, em que você vai reverter o jogo se apelar para a autopiedade, a súplica e a relativa (falta de?) boa vontade alheia. Resta a estupidez ou a saída pela direita.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Por um cafofo mais limpo
O ano ainda não começou por aqui. Mas tem coisa acontecendo em outros espaços por aí. Estreei meu podcast. A cada edição, um tema e um co-apresentador diferente. Não repare nos recursos precários. A porta do cafofo está aberta e a cerveja está gelando...
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Nivelando primeiro e terceiro mundo
Vamo dançando enquanto a revolução não chega.
Trecho sensa de uma das lendárias apresentações da banda pós-punk holandesa The Ex com o saxofonista etíope Getatchew Mekurya. Logo mais eu desenvolvo (ou não) e trago novidades (bem provável!).
Trecho sensa de uma das lendárias apresentações da banda pós-punk holandesa The Ex com o saxofonista etíope Getatchew Mekurya. Logo mais eu desenvolvo (ou não) e trago novidades (bem provável!).
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Falso início
Resolvi dar um tapa na mobília. Passar o dedo na camada de poeira e ver o que ainda sobrava ali embaixo, parado. Descobri um bocado de entulho e joguei muito disso fora.
A insalubre edícula estava prestes a desmoronar. Uma ratazana cinza de meio metro havia penetrado pela fresta da porta, depois de atravessar o matagal do quintal, e procriado ali dentro. Não parecia bom sinal. Tinha tempo que este lugar estava indeciso se morria ou não. O abandono não era mero desprezo: era um gesto ostentivo. Se acontecesse, não seria algo a se lamentar.
A cara mudou um pouco, mas é só o ponto de partida. Por enquanto, mal consigo praticar os projetos novos que tenho em mente. A cada vez que ouso compartilhá-los com alguém por perto, é balde d'água fria na certa. Sem contar as gralhas histéricas aqui do trabalho e suas risadas cancerígenas. A hora é de continuar em silêncio, mas, depois de bastante tempo, rascunhar convulsivamente.
A insalubre edícula estava prestes a desmoronar. Uma ratazana cinza de meio metro havia penetrado pela fresta da porta, depois de atravessar o matagal do quintal, e procriado ali dentro. Não parecia bom sinal. Tinha tempo que este lugar estava indeciso se morria ou não. O abandono não era mero desprezo: era um gesto ostentivo. Se acontecesse, não seria algo a se lamentar.
A cara mudou um pouco, mas é só o ponto de partida. Por enquanto, mal consigo praticar os projetos novos que tenho em mente. A cada vez que ouso compartilhá-los com alguém por perto, é balde d'água fria na certa. Sem contar as gralhas histéricas aqui do trabalho e suas risadas cancerígenas. A hora é de continuar em silêncio, mas, depois de bastante tempo, rascunhar convulsivamente.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Da série 'passou pelo mp3 e não deixou saudades'.
Embora alguns sem-noção como este que aqui escreve ainda resistam bravamente, todos sabem que a abolição do CD para o grande público é iminente. Nenhuma novidade até aqui. Mas, entre os que respiram música e procuram constantemente alimento para os ouvidos, nem todos se deram conta do processo "evolutivo". Muitos discos que ainda nem saíram em formato físico chegam quentinhos no desktop e vão para a lixeira poucos dias depois (às vezes, poucos minutos depois), quase despercebidos. Entram por um ouvido e saem pelo outro, literalmente. Aqui vão alguns que passaram por aqui nas últimas semanas, todos lançados/vazados em 2008. Em breve, mais uma fornada.
Death Cab For Cutie - Narrow Stairs
Conhecia de nome e sabia que um dos membros produziu um disco recente do Nada Surf. O pouco que ouvi de Plans, álbum anterior deste quarteto americano, já avisava: tudo bonitinho, limpinho, insípido, devagar, quase parando. Deveria ter parado por ali, mas sou cabeça-dura. Banda adorada por indie-rockers nerds (pleonasmo?) do hemisfério norte, o DCFC faz a típica trilha de séries como O.C., com músicas longas, sem pegada, sem melodia marcante. Letras "rapazinho sensível" com pretensões literárias - tem até citação a Kerouac - mas sem inspiração. Guitarrinhas murchas, voz comportada, teclados modorrentos e contínuos. Sono, muito sono. Ouvir Narrow Stairs de cabo a rabo é como comer aquela sobremesa que ficou semanas na geladeira.
Hold Steady - Stay Positive
Tiozinhos elogiados por sites gringos como o Pitchfork e presença constante em listas de melhores do ano de revistas tipo Uncut, Mojo e yadda-yadda-yadda. A banda até que é boa: influências de Springsteen e Replacements, refrãos que funcionam em arena e letras espertas que, na verdade, são pequenos contos sobre gente bêbada e passional. Os únicos problemas com este disco são:
(1) O vocalista, com sua indefectível voz de pato, precisa de um fonoaudiólogo urgente. E a cada faixa ele insiste nos mesmos maneirismos: voz anasalada proferida com sofreguidão, quebrando a métrica. Começa a cansar na metade.
(2) De vez em quando a banda finca o pé na farofa. Uma faixa, por exemplo, é conduzida por um cravo, instrumento de gosto bem duvidoso. Em outra, uma belíssima balada, entra uma guitarra solando à la Richie Sambora.
Howlin' Rain - Magnificent Friend
Definida por muitos como o Purple clássico com os vocais de Rod Stewart dos bons tempos (anos 60 e 70), esta banda de San Francisco é exatamente isso e não vai muito além. Não que seja pouco. A mistura de soul, hard rock, blues e psicodelia, com direito a timbres e produção vintage, chega a empolgar em alguns momentos. Ao vivo deve ser potente. Com uma cerveja geladíssima acompanhando, então, perfeito. Poderia ser daquelas bandas que nunca gravam, só viajam por aí tocando em feirinhas da Pompéia, viradas culturais e bibocas da Louisiana. Mas o disco, embora interessante, chega a ser caricato. E nem seria preciso dizer, mas vá lá: não faz nem sombra a um Exile on Main Street ou mesmo aos melhores do Black Crowes.
Death Cab For Cutie - Narrow Stairs
Conhecia de nome e sabia que um dos membros produziu um disco recente do Nada Surf. O pouco que ouvi de Plans, álbum anterior deste quarteto americano, já avisava: tudo bonitinho, limpinho, insípido, devagar, quase parando. Deveria ter parado por ali, mas sou cabeça-dura. Banda adorada por indie-rockers nerds (pleonasmo?) do hemisfério norte, o DCFC faz a típica trilha de séries como O.C., com músicas longas, sem pegada, sem melodia marcante. Letras "rapazinho sensível" com pretensões literárias - tem até citação a Kerouac - mas sem inspiração. Guitarrinhas murchas, voz comportada, teclados modorrentos e contínuos. Sono, muito sono. Ouvir Narrow Stairs de cabo a rabo é como comer aquela sobremesa que ficou semanas na geladeira.
Hold Steady - Stay Positive
Tiozinhos elogiados por sites gringos como o Pitchfork e presença constante em listas de melhores do ano de revistas tipo Uncut, Mojo e yadda-yadda-yadda. A banda até que é boa: influências de Springsteen e Replacements, refrãos que funcionam em arena e letras espertas que, na verdade, são pequenos contos sobre gente bêbada e passional. Os únicos problemas com este disco são:
(1) O vocalista, com sua indefectível voz de pato, precisa de um fonoaudiólogo urgente. E a cada faixa ele insiste nos mesmos maneirismos: voz anasalada proferida com sofreguidão, quebrando a métrica. Começa a cansar na metade.
(2) De vez em quando a banda finca o pé na farofa. Uma faixa, por exemplo, é conduzida por um cravo, instrumento de gosto bem duvidoso. Em outra, uma belíssima balada, entra uma guitarra solando à la Richie Sambora.
Howlin' Rain - Magnificent Friend
Definida por muitos como o Purple clássico com os vocais de Rod Stewart dos bons tempos (anos 60 e 70), esta banda de San Francisco é exatamente isso e não vai muito além. Não que seja pouco. A mistura de soul, hard rock, blues e psicodelia, com direito a timbres e produção vintage, chega a empolgar em alguns momentos. Ao vivo deve ser potente. Com uma cerveja geladíssima acompanhando, então, perfeito. Poderia ser daquelas bandas que nunca gravam, só viajam por aí tocando em feirinhas da Pompéia, viradas culturais e bibocas da Louisiana. Mas o disco, embora interessante, chega a ser caricato. E nem seria preciso dizer, mas vá lá: não faz nem sombra a um Exile on Main Street ou mesmo aos melhores do Black Crowes.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Apesar do 1° de abril...
19° Cartório de Registro Civil, Perdizes, por volta de uma da tarde. Aproveito minha semana tranqüila, pós-trabalhos tensos, para dar prosseguimento à abertura da encantada ME. Enquanto aguardo berrarem o número 272, minha senha, dou uma geral na fila de gente com cara de nada, espalhada por bancos ensebados e paredes curtas. A única figura que destoa no meio dos burocratas é um cara grandão e barbudo, totalmente coberto de tattoos esverdeadas, dos punhos até o pescoço, usando dreads, bandana, rayban e chinelo. Naipe de músico, lembra o Rick ta Life. Avisto o elemento ao mesmo tempo que um provável velho conhecido dele, que chega dizendo:
- Fala, meu velho! Como é que tá?
- E aê, fulano! Quanto tempo, hein?
- Pois é. E aí, o que tá fazendo?
- Tava parado por um tempo, mas voltei a tocar.
- Legal. Tá fazendo som com quem?
- Tô tocando na banda do Gilliard, cara.
- Fala, meu velho! Como é que tá?
- E aê, fulano! Quanto tempo, hein?
- Pois é. E aí, o que tá fazendo?
- Tava parado por um tempo, mas voltei a tocar.
- Legal. Tá fazendo som com quem?
- Tô tocando na banda do Gilliard, cara.
quarta-feira, 19 de março de 2008
R.E.M. - Accelerate

Para muita gente, eles já deram o que tinha que dar. É a parcela do que público que, embora ainda preze a banda e ouça seus principais hits, deixou de acompanhá-los em algum momento dos anos 90. E é bem provável que esses quarentões da Geórgia, no sul dos EUA, já tenham deixado os demais mortais a par sobre os seus melhores trabalhos. Eu mesmo já havia parado de prestar atenção no que o R.E.M. lançava desde o irregular Up, de 98. Ok, tive vontade de vê-los três anos depois, no Rock in Rio III, mas não deu - acabei me contentando com um show farofeiro e no piloto automático dos Chili Peppers. Demorei até gostar de verdade do Reveal, um disco belo e subestimado. Já o mais recente Around The Sun, de 2004, ouvi poucas vezes ao pegar emprestado de um amigo que é grande fã da banda. Foi o suficiente para carimbá-lo como o ponto mais baixo, talvez o único momento constrangedor em 20 e tantos anos. Posso estar sendo simplista, mas discurso político pró-democratas (foi lançado pouco antes do Bush se reeleger em cima do Kerry) e arranjos eletrônicos broxas não combinam com Stipe, Mills & Buck.
O forte deles sempre foram canções redondas. Baladas matadoras acústicas e orquestradas, levadas roqueiras intensas e boas canções pop, sempre com sotaque interiorano estadunidense e forte apelo universal. Mas a alternância entre os momentos introspectivos (ouça o New Adventures in Hi-Fi inteiro) e efusivos ("Shinny Happy People" é o exemplo mais óbvio) parecia começar a cair pelas tabelas. Accelerate, o novo disco que está para sair, inverte toda essa lógica. Havia tempos que a banda não soava tão energética e concisa. A empolgante seqüência das três primeiras faixas já denuncia: Peter Buck, com quase cinqüenta anos, volta ao primeiro plano e continua sendo ótimo guitarrista. Com faixas curtas e roqueiras, o disco soa como uma versão mais otimista do melancólico Monster, de 94, álbum distorcido e com gosto amargo pós-suicídio de Kurt Cobain. Ainda ouvi poucas vezes o novo, mas já arrisco dizer que me enganei ali em cima: talvez o R.E.M. ainda possa surgir com material tão bom quanto o melhor que já fez. Accelerate dá essa pista.
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